Fumante: você já sabe que pode adoecer. Seja bem-vindo para ver como podem ser seus últimos meses (contém fotos)
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O texto abaixo é um relato de como foi a vida e morte de uma vítima de câncer no pulmão, que faleceu em 5 de junho de 2008.
Maria Lucília, 45 anos, fumante há aproximadamente 30 anos, vai a uma consulta de rotina com um pneumologista. Após a consulta e exames, lhe é recomendado que pare de fumar.
Aos 58 anos (aprox. 43 anos fumando), acorda numa certa noite com falta de ar. Ela decide que deve parar de fumar. Pára de fumar abruptamente, com sucesso, e sem usar nenhum método especial.
Nos dias seguintes, respira muito melhor do que respirava antes.
Passa a fazer tomografias computadorizadas regularmente.
A pressão arterial é alta, passa a tomar medicamento de uso contínuo para controle.
A tosse é uma seqüela do histórico de tabagismo.
Aos 60 anos, ex-fumante há dois, após um gradativo aumento na dificuldade de respirar, é diagnosticado um “importante enfisema pulmonar”. Passa a usar broncodilatadores para respirar com menos dificuldade e outras medicações de uso contínuo que somam mais de R$ 300,00 por mês.
Aos 62 anos, ex-fumante há quatro, é levada à emergência cardiológica com dores no braço esquerdo. Diagnóstico: princípio de infarto. Foi submetida a cateterismo, que diagnosticou obstruções coronarianas importantes. Alguns dias depois, fez angioplastia para colocação de duas endopróteses (R$ 12.700,00 cada unidade). A respiração melhora um pouco, devido a melhora do sistema cardiorespiratório.
Aos 63 anos, ex-fumante há 5, através de uma tomografia computadorizada, apresenta uma pequena lesão de aprox. 8 mm, mas que já estava presente em tomografias anteriores, mantendo-se inalterado.
Junho
Aos 65 anos, ex-fumante há 7, num inverno rigoroso, a tosse (que já era parte do dia-a-dia) piora e torna-se persistente. Não há xarope ou remédio que alivie.
Agosto
A respiração piora um pouco, o fôlego fica mais curto.
A tosse alivia um pouco com Belacodid (vendido somente com receituário de controle especial). Enquanto isso, numa radiografia, aparece algo que será investigado com uma tomografia computadorizada.
A tomografia com contraste (aproximadamente R$ 1.200,00) indica que há uma “massa” desconhecida entre os pulmões.
Setembro
A paciente é submetida a uma broncoscopia para coleta de células da massa, que serão enviadas para biópsia.
No dia 11, o resultado: mucosa brônquica infiltrada por célula escamosas (carcinoma). A notícia do câncer é um choque violento, mas acredita-se que o estágio em que a doença foi descoberta seja propício para boa recuperação, podendo levar à “cura” (leia sobre cura de câncer).
Outubro
Inicia radioterapia, que é feita diariamente no Hospital de Caridade. Inicia, também, quimioterapia, realizada semanalmente.
Nos dias anteriores às quimioterapias, é sempre necessário fazer um exame de sangue (ou seja, pelo menos duas espetadas nas veias por semana).
A respiração está ainda pior. Não consegue caminhar mais do que 50 metros no plano sem paradas para respirar.
Dezembro
A radioterapia é encerrada, após atingir o limite que o organismo pode suportar radioatividade. É feita uma primeira “quimioterapia de reforço”, com medicamento mais agressivo.
Durante dez dias, a medicação causa fortes dores no corpo e, principalmente, nos ossos dos pés e pernas. As dores são mais fortes na posição deitada.
Apenas agora os cabelos começam a cair.
Janeiro
A segunda quimioterapia de reforço é aplicada, mas desta vez os sintomas são mais brandos. Instala-se o alívio por haver concluído o tratamento e ingressar na fase de acompanhamento. Os cabelos caíram todos.
A respiração piora. Subir um lance de escada requer aproximadamente cinco minutos com pausas para descanso.
Fevereiro
No início do mês, surge uma dor de cabeça persistente, que se mantém e analgésicos como dipirona sódica não ajudam.
No dia 18, faz uma tomografia computadorizada de tórax e crânio, e verifica-se que houve uma importante redução tumoral (menos de 50% do tamanho original). A posição da oncologia clínica é que o tumor está inativo e uma nova TC deve ser feita em 60 dias (dia 18 de abril). A hipótese de metástase para a cabeça não é considerada, por não haver nada na TC.
Apesar da redução tumoral, a respiração piora.
Março
No início do mês, devido a dificuldade de respiração, vai ao hospital para fazer uma nebulização, na esperança de que a respiração melhore um pouco.

Nebulização no Hospital de Caridade, em 11/03/2008
A respiração aliviar por algumas horas, voltando a ser difícil mais tarde.
Mais adiante, a respiração tem uma piora grave. Passa a usar, em casa, um concentrador de oxigênio, com vazão ajustada em 2 litros por minuto. O aluguel mensal é de aproximadamente R$ 360,00. Como houve redução do tumor, a hipótese da oncologia é que haja uma pneumonite, causada pela radioterapia. O tratamento da pneumonite é feito com cortizona intravenosa a cada doze horas, por sete dias. O serviço Unimed Lar faz as aplicações em casa. Um acesso venoso é mantido, para facilitar as aplicações subseqüentes. O tratamento alivia bastante a dificuldade de respirar.

Concentrador de oxigênio

Unimed fazendo atendimento domiciliar

Medicação e material que a Unimed mantém na casa do paciente, durante o tratamento
Abril
A respiração piora. Fica ofegante sentada, em repouso, apesar do oxigênio. Não consegue nem caminhar até o banheiro. O oncologista orienta a medicá-la novamente com o tratamento para pneumonite. Os sintomas, inicialmente, são aliviados.
No dia 9, a respiração mantém-se insuficiente, com baixa saturação de oxigênio no sangue (aprox. 75%) e, então, é levada na ambulância da Unimed ao Núcleo de Atenção à Saúde (NAS), onde fica em observação.
O oncologista, diante da situação, orienta a fazer uma TC, que é realizada no dia 10. É levada do NAS até o laboratório de ambulância, com oxigênio. No dia 11, o oncologista informa que houve um crescimento tumoral importante. É necessário reiniciar a quimioterapia e manter a medicação para pneumonite (intravenosa, administrada a cada 12 horas).
A tosse, sempre presente, agora libera catarro com sangue. O desânimo é tamanho que está disposta a não continuar o tratamento.
A família mantém-se empenhada e lhe dar forças, e ela decide continuar o tratamento.
O novo quimioterápico é administrado no dia 16 pela manhã.
No dia 16 à noite seria a última aplicação do medicamento para pneumonite. O acesso venoso colocado na mão, infelizmente, não funciona mais e não há mais veias para colocar outra agulha. O esgotamento emocional de todos e, da paciente, físico, é tamanho que desiste-se de fazer a última aplicação.

Hematomas resultantes da saturação das veias, com dificuldade de puncionamento

Medicação subcutânea
Maio
Já foram feitas duas quimioterapias adicionais. Passa a tomar uma série de novos medicamentos, prescritos pelo pneumologista. O corticóide é o tipo de substância que alivia a respiração, tornando a situação grave um pouco mais suportável. Toma morfina (em comprimido) diariamente, tanto para evitar eventuais dores como para dar conforto (proporciona uma sensação de “leveza”, segundo a paciente deste relato).
No dia 17, sábado, é atendida por meio da Unimed Lar por um médico que constata infecção pulmonar. A fraqueza é tamanha que mal consegue sustentar-se sobre as próprias pernas. O oxigênio é aumentado para 4 litros/min.

O cilindro de oxigênio, usado para transportar a paciente

Como é transportada a paciente

Dia 20, no Centro de Apoio ao Paciente com Câncer
No dia 28, quando haveria mais uma quimioterapia, seu estado é tão delicado (infecção, anemia, etc.) que não foi possível fazer a quimioterapia. No hemograma realizado na véspera, o percentual de hematócritos ficou em 27,4% (na literatura, o valor deve estar entre 36 e 46%). Devido ao estado de evidente debilidade física, é imediatamente internada para fazer transfusão de sangue, radiografia, eletrocardiograma e outros exames.

Nebulização com oxigênio, para alívio paliativo da respiração

Como se dorme, sob efeito de Rivotril ou Dormonid,
e dificuldade em respirar mesmo com oxigênio a 4 l/min.
No dia 29, recebeu 800 ml de sangue O+.

Transfusão de sangue
No dia 30, uma pequena evolução: sentada na cama, consegue levantar as próprias pernas sozinhas (e nada mais, não deita nem se levanta sozinha, tampouco caminha).
No dia 31, as dores musculares por não ter forças para se mover tornam-se mais freqüentes. A morfina, prescrita para ser tomada uma vez ao dia, já não é mais suficiente. Não consgue mais usar a comadre para fazer suas necessidades, e é substituída por fraldas geriátricas.
Junho
No dia 1, domingo, o pneumologista, na visita diária à paciente internada, solicita um “parecer oncológico” do Oncologista, que retorna de viagem no dia 2. Mudou também a prescrição de morfina para “quando necessário”. Sedativo (Dormonid intravenoso, uso exclusivamente hospitalar) também é incluído no receituário. A paciente, com dores insuportáveis, implora por sedação para não sentir mais dores.
No dia 2, segunda-feira, o oncologista, que estava em viagem, retorna e é colocado a par da situação atual. É perguntado sobre a viabilidade de quimioterapia ou se é hora de se entregar a Deus. Comprometeu-se a avaliar a paciente na manhã seguinte.
No dia 3, terça-feira, o oncologista examina a paciente e constata que seu quadro é muito grave. Conversa com o pneumologista e ambos concordam que ela encontra-se em estado terminal, já que a paciente não respondeu ao tratamento. Assim, o falecimento é anunciado e aguardado para ocorrer a qualquer momento. A morfina passa a ser administrada por via subcutânea.
No dia 4, quarta-feira, não há mais veias por onde se possa administrar a morfina e o sedativo. É feito um acesso através da veia subclave.
No dia 5, quinta-feira, à 1h00, sofre uma parada cardiorrespiratória e vem a falecer. Estão presentes a irmã e um filho. Causa da morte: “caquexia neoplásica”, em decorrência de “neoplasia brônquica”.